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Assumir o desprazer

Maria Carolina Passos
24 de jul.
2 min de leitura

Não é curioso? Há promessas de prazer por todo lado e na palma da sua mão, mas a entrega é muito mais voltada à exaustão e ao esgotamento. Talvez porque o problema nunca tenha sido o desprazer.


Antigamente o superego vinha cheio de interdições, tabus e “não podes”; hoje ele avança numa direção contrária e mais sedutora: você pode tudo. Faça mais. Aproveite mais. Ame mais. Viaje mais. Tenha o corpo certo, a carreira certa, a rotina certa.


Até descansar virou tarefa.


Colagem com mulher vintage cercada de imagens com expressão desprazerosa.

Se em outros tempos o sintoma se apresentava mais como um enigma a ser decifrado (como na histeria clássica), hoje ele costuma chegar à clínica transbordando: ansiedade generalizada, burnout, compulsões, crises de pânico, cansaço sem fim. Um excesso de estímulos que termina produzindo uma estranha experiência de vazio.


A urgência é tanta que já não há tempo pra contemplar e desejar, apenas para responder às demandas.


Uma das viradas mais difíceis de uma análise é sair de “como faço isso passar” para “o que, de fato, eu quero?” Não o que esperam de mim, o que o algoritmo recompensa, ou o que parece mais produtivo. O que eu busco? E, junto disso: qual é a minha participação na desordem da qual me queixo?


Porque, não raramente, a própria queixa se torna uma forma de permanecer onde o caminho já é conhecido. Há uma satisfação inconsciente na repetição, ainda que ela custe caro. Por isso, assumir o desprazer pode ser libertador.


Admitir que algo não nos dá prazer, que não estamos bem e que não temos todas as respostas é o primeiro passo pra sair da repetição alienada e construir um desejo que seja, enfim, singularmente seu.


Freud nos mostrou que o princípio do prazer encontra limites na própria condição humana. A vida psíquica não se organiza pra garantir felicidade permanente, mas para tornar o excesso de tensão suportável.


Talvez a liberdade comece quando deixamos de perseguir uma vida sem desprazer e passamos a perguntar se boa parte do nosso cansaço não vem, afinal, do esforço contínuo de tentar ser quem não somos.


Assumir o desprazer exige coragem.


A coragem, simplesmente, de ser.

 
 
 

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