Repressão
- Maria Carolina Passos
- 13 de ago.
- 2 min de leitura
Quantas vezes você ouviu “engole esse choro”, “não é hora nem lugar pra isso”, “você precisa ser forte”? Talvez essas falas de repressão façam lembrar da sua criação. Ou talvez, hoje, seja a sua própria voz interna que diga tudo isso, e muito pior.
O termo mais preciso na psicanálise é Recalque (Verdrängung), que você provavelmente já viu por aqui. Mas nesse post quero deixar o conceito mais próximo do uso comum e falar na boa e velha repressão. Não a que vem de fora - da família, da religião, da cultura, das expectativas sociais - mas aquela que acabamos incorporando.

Reprimir é afastar da consciência o que nos causa conflito - um desejo, uma lembrança, uma fantasia, um afeto - porque não combina com aquilo que acreditamos que podemos ou devemos ser.
E aprendemos cedo o que pode ou não pode aparecer, né? Diziam pra não chorar, pra não fazer feio, que não podíamos querer certas coisas. Pra não ser egoísta, muito menos feito de trouxa - uma confusão que só. Que não podíamos falar disso ou daquilo.
Até que, em algum momento, já não é preciso que alguém mande a gente se calar. Nós mesmos nos calamos. Pelo menos em voz alta.
Lá no final do século XIX, a chamada histeria foi um dos fenômenos que levou Freud a questionar a ideia de que todo sofrimento pudesse ser explicado pelo corpo. Mulheres apresentavam paralisias, anestesias, convulsões e vários outros sintomas intensos sem que houvesse uma lesão orgânica que os justificasse.
Anna O. tornou-se um dos casos emblemáticos dessa história. Seus sintomas mostravam que o sofrimento psíquico podia encontrar outras vias de expressão quando não encontrava palavras.
Semelhante a como na natureza nada se perde, tudo se transforma, o que é afastado da consciência não desaparece, continua produzindo efeitos. Sabe o famoso “varrer pra debaixo do tapete”? Pois é, não funciona - mas isso você já sabe.
O reprimido retorna: num sintoma, numa inibição, numa repetição, numa escolha que parece inexplicável, numa angústia sem nome. E há normas que, depois de tanto serem repetidas, já não precisam mais ser impostas. Passam a funcionar dentro de nós.
Gosto de lembrar que a psicanálise não existe pra nos tornar mais “adequados” à norma. É sobre escutar aquilo que foi silenciado e, a partir daí, encontrar outros destinos pra isso.
Em paralelo a conhecer e reconhecer o que você reprimiu, deve-se interrogar o que precisou ser reprimido pra que você pudesse ser quem esperavam que fosse.
Não dá pra mudar o passado, mas dá pra mudar a forma de se relacionar com o que se tem dele. Perceber quando essa voz repressora é realmente sua, e quando ela apenas continua repetindo o que um dia ensinaram você a calar… da repressão, pode-se dar lugar à expressão.




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