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Cultura da venda do eu

  • Maria Carolina Passos
  • 10 de jul.
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 7 dias

Em algum momento da história, nós deixamos de apenas viver, produzir e consumir para também nos vender. Hoje já não basta ser, é preciso parecer. Precisamos refletir sobre a cultura da venda do eu.


Imagem preto e branco com rosto de mulher com os olhos cobertos por um código de barras.

Não vendemos somente nosso trabalho, nossas ideias ou nossos projetos. Vendemos nossa personalidade. Nossa rotina. Nossa intimidade. Nossa autenticidade - cuidadosamente editada, é claro.


Escolhemos o que mostrar, o que esconder, em que momento aparecer. Aprendemos quais versões de nós geram mais engajamento e quais passam despercebidas. Pouco a pouco, aprendemos que algumas versões performam melhor do que outras. E começamos a negociar, consciente ou inconscientemente, quais delas merecem existir em público.


O perfil passou a funcionar como uma espécie de currículo afetivo. Saímos de "quem sou eu?" para "como posso parecer interessante o suficiente pra ser visto?" Mas seria simplista reduzir isso à vaidade; ser visto é uma necessidade profundamente humana.


Lacan dizia que o desejo humano passa inevitavelmente pelo desejo do Outro. É verdade que nunca fomos indiferentes ao olhar alheio; o reconhecimento sempre teve um lugar na constituição de quem somos. Mas as redes transformaram esse olhar em métrica: curtidas, alcance, compartilhamentos, seguidores. O olhar do Outro ganhou estatísticas!


Em seu livro Entre Sessões, o psicanalista Lucas Liedke escreve que talvez estejamos "só pensando alto, em uma vitrine pública. Tentando aparecer para não desaparecer, diante de tantos que passam, rapidamente, distraídos e desatentos à nossa frente."


Nunca foi tão fácil publicar. E nunca foi tão difícil sustentar um olhar. Disputamos atenção em um ambiente saturado de imagens, discursos e performances. Ainda assim, nossos olhares seguem capturados… por algo, por tudo e por nada.


Não penso que precisamos demonizar as redes sociais, tampouco defender um purismo ingênuo. Afinal, quem trabalha precisa ser encontrado. A questão é: de que forma? Onde fica a ética quando a lógica do mercado passa a atravessar a construção do eu?


Quando a necessidade de aparecer começa a determinar quem precisamos ser pra (sobre)viver nas redes?


Imagem preto e branco mulher com face entediada sobre a mesa com máscaras de seu rosto com diferentes expressões sorridentes e provocativas.

A psicanálise não se ocupa de construir versões mais atraentes de alguém. Seu compromisso é abrir espaço pra que o sujeito encontre algo de seu desejo para além das identificações que o organizam - inclusive aquelas que ele próprio produz pra ser amado, admirado ou consumido.


Há uma diferença, porém, entre usar uma vitrine e tornar-se o próprio produto. Talvez o desafio seja sustentar - e, quando necessário, recalibrar - esse limite.


Pois se o mercado nos convida continuamente a vender uma imagem ideal de nós mesmos, o que acontece com aquilo que, em nós, não pode (ou não deveria) ser transformado em mercadoria?

 
 
 

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