A gente foge ao encontro
Tal qual Édipo, a gente foge ao encontro. Na tragédia de Sófocles, Édipo faz de tudo pra escapar do destino que lhe foi anunciado: matar o pai e casar com a mãe.
Foge de Corinto, afastando-se daqueles que acredita serem seus pais. Tenta mudar o rumo da própria história, mas é justamente nessa fuga que ele acaba onde queria evitar. No caminho da evasão, o encontro acontece.

A sina de Édipo remete a algo muito caro para a psicanálise: muitas vezes não caminhamos em direção ao que queremos, caminhamos em direção ao que nos determina. E fazemos isso repetidamente.
Em “Recordar, Repetir e Elaborar”, Freud nos mostra que aquilo que não pôde ser nomeado e elaborado psiquicamente tende a retornar na forma de repetição. Em outras palavras, não simplesmente lembramos do passado, nós o encenamos por assim dizer.
Repetimos nas escolhas amorosas, nos conflitos, nos impasses que voltam com novos rostos. Assim como Édipo, às vezes tentamos e até acreditamos estar nos afastando de algo, quando, na verdade, estamos “fugindo” diretamente ao seu encontro.
A repetição não é um mero fracasso do sujeito. Ela tem uma função. Aponta pra algo que insiste, algo que resiste e pede inscrição psíquica - precisa ganhar um sentido pessoal.
É por isso que, em análise, não se trata apenas de entender intelectualmente o que aconteceu na própria história. Trata-se de reconhecer o circuito em que se está preso. Perceber o modo como certas cenas retornam, como certos lugares são ocupados, como determinados encontros parecem sempre conduzir ao mesmo desfecho.
Só quando esse circuito se torna visível é que algo pode começar a se deslocar. O pai da psicanálise chamou esse trabalho de elaboração.
É sobre deixar de ir ao encontro do “destino” pela via da repetição cega. Porque, enquanto não nos damos conta do caminho que seguimos, corremos o risco de fazer como Édipo:
fugir…
apenas pra chegar exatamente onde sempre chegamos.




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