O amor e o que ele faz
Tem uma citação do psiquiatra M. Scott Peck que diz “o amor é o que o amor faz. Amar é um ato da vontade - isto é, tanto uma intenção quanto uma ação.”
Acho interessante deslocar o amor do território das declarações para o das consequências, afinal, de pouco adianta dizer que se ama quando as atitudes caminham sistematicamente na direção contrária.
Mas a psicanálise acrescenta uma complicação aí: nem sempre sabemos exatamente o que fazemos quando amamos, muito menos por que escolhemos amar determinadas pessoas.

Freud apontava que nossas escolhas amorosas não são tão conscientes quanto gostaríamos de acreditar. Há nelas marcas das primeiras experiências de satisfação, identificações e ideais que projetamos sobre quem escolhemos amar.
Uma das maiores dificuldades do amor talvez esteja no encontro entre aquilo que imaginamos sobre alguém e aquilo que essa pessoa efetivamente é.
Porque, enquanto o outro corresponde às nossas expectativas, podemos dizer que é relativamente fácil amá-lo. Difícil é quando ele nos contraria e frustra, apresenta desejos próprios e insiste em existir para além do lugar que reservamos a ele em nossa fantasia.
É possível dizer que amamos enquanto, na verdade, tentamos controlar. Confundir cuidado com posse, entrega com anulação, dedicação com a expectativa de receber algo em troca. Nem toda demonstração de amor está livre do narcisismo, assim como nem toda renúncia é necessariamente um gesto de amor.
Mas seria equivocado supor que amar depende apenas de uma decisão consciente ou da vontade de agir de determinada maneira. O inconsciente também participa dessa história, e não raro nos surpreende com suas contradições.
Pode ser que amar envolva, entre tantas coisas, reconhecer que o outro não existe pra confirmar nossas expectativas, preencher nossas faltas ou representar um personagem que escrevemos em nossa mente.
E que amar não é deixar de desejar algo do outro, mas conseguir reconhecer que há ali um sujeito cujo desejo não nos pertence.
No fim das contas, vale a pena nos perguntarmos (melhor ainda em análise): o que nossas maneiras de amar revelam sobre o lugar que concedemos à existência do outro - e sobre aquilo que esperamos que o amor faça por nós?




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