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A raiva e seus desdobramentos

Maria Carolina Passos
há 3 dias
2 min de leitura

Dizem que guardar raiva é como engolir brasa esperando que o outro se queime. Mas a clínica psicanalítica nos mostra que, muitas vezes, o sujeito prefere a queimação interna à vertigem de se haver com o vazio que a raiva encobre.


No divã, a raiva raramente se apresenta puramente como um afeto bruto. Ela chega mascarada de justiça, de irritação cotidiana ou, no extremo oposto, emudecida sob a couraça de uma polidez intransponível. Ok, mas o que a psicanálise nos ensina sobre essa paixão do eu?


Bom, desde os primórdios Freud apontava que o afeto recalcado não desaparece, ele se converte. A agressividade é constitutiva do ser humano e, não raro, ela se volta contra o próprio sujeito. É o ódio virado pra dentro, a culpa que corrói, ou o sintoma somatizado que o corpo grita quando a palavra falha.


Winnicott também nos lembrou que a raiva tem uma função primordial na construção do vivente: ela é um marco de alteridade. É sentindo raiva que o bebê descobre que o mundo não é uma extensão de seu próprio ego; que o outro resiste, frustra e, justamente por isso, existe.


Então, o que fazer com esse afeto que nos incendeia?


Desenho de mulher com rosto vermelho todo enconberto de AAAAAAAAAA's expressando raiva, grito, ódio.

Os caminhos da psicanálise passam longe da autoajuda ou de uma gestão emocional pasteurizada. Não se trata de domesticar a raiva com chás ou mantras, nem de descarregá-la impulsivamente na internet. O manejo analítico da raiva exige responsabilidade subjetiva.


Fazer algo com esse afeto implica em:

- deslocar a queixa: parar de perguntar "por que o outro fez isso comigo?" e começar a escutar "o que essa fúria diz sobre a minha própria economia narcísica."


- dar estatuto de palavra: pensar a raiva como um curto-circuito do real que busca passagem. Em outras palavras, quando o sujeito consegue nomear sua angústia na transferência, a fúria bruta pode ceder lugar ao desejo de saber.


- assumir o conflito: aceitar que habitar a linguagem é habitar o desencontro. O ódio ao semelhante é, no fundo, o ódio às nossas próprias impossibilidades.


A raiva não precisa ser um veneno silencioso, nem uma arma de destruição em massa. Na análise - e, convenhamos, na vida - ela pode ser o detonador de uma verdade que se vinha recusando escutar.


Bora refletir: quando a raiva aperta, qual é a primeira defesa que você aciona, o silêncio que pune ou o fogo que consome? E se quiser elaborar a sua raiva e seus desdobramentos, podemos conversar.

 
 
 

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