As três feridas narcísicas da humanidade
- Maria Carolina Passos
- 26 de mai.
- 2 min de leitura
Houve um tempo em que a humanidade acreditava ocupar o centro de tudo. E talvez a história da psicanálise também seja, em parte, a história da lenta humilhação dessa fantasia.
Freud chamou de feridas narcísicas os golpes sofridos pelo narcisismo humano ao longo da história - momentos em que fomos obrigados a abandonar certas ilusões grandiosas sobre nós mesmos. Claro, isso não aconteceu sem resistência, muito menos sem angústia.

A primeira ferida veio com Copérnico.
- A Terra então não era mais o centro do universo. Girávamos em torno do Sol como qualquer outro planeta, perdidos numa vastidão indiferente. A humanidade deixou de ocupar o lugar privilegiado que imaginava ter na criação.
Depois veio Darwin.
- O homem já não podia mais se pensar como uma criatura separada, excepcional, divina e apartada do reino animal. Havia continuidade entre nós e aquilo que tanto tentávamos negar: o corpo, o instinto, a violência, o desejo, a sexualidade, a morte.
Então Freud propôs a terceira ferida narcísica: o Eu não é senhor em sua própria casa.
- Aquilo que acreditávamos controlar racionalmente - nossos pensamentos, escolhas, afetos, sintomas, relações - não responde apenas à consciência. Existe uma dimensão inconsciente em nós que escapa, insiste, retorna, sabota, repete.
Talvez seja justamente por isso que a psicanálise siga provocando tanta resistência até hoje. Porque ela não oferece ao sujeito a fantasia confortável de domínio absoluto sobre si. Ao contrário, confronta-o com sua divisão.
Não somos transparentes para nós mesmos. E talvez nunca sejamos.
Curiosamente, em pleno século XXI, uma nova ferida narcísica começa a se insinuar: a inteligência artificial.
Não apenas porque máquinas agora escrevem, desenham, compõem músicas ou respondem perguntas complexas. Mas porque isso toca algo profundamente narcísico em nossa cultura: a crença de que certas capacidades cognitivas nos tornavam únicos.
De repente, funções antes tratadas quase como prova de excepcionalidade humana começam a ser reproduzidas por algoritmos. E o impacto disso não é apenas tecnológico, é subjetivo.
Penso que por isso tantas reações oscilem entre fascínio e pânico. Entre encantamento e hostilidade. Entre idealização e desprezo. Como frequentemente acontece diante daquilo que ameaça nossa imagem idealizada.
Mas existe uma diferença fundamental que a psicanálise talvez ainda possa sustentar nesse debate: inteligência não é sinônimo de sujeito.
Um algoritmo pode organizar linguagem, reconhecer padrões, produzir respostas sofisticadas. Mas isso não significa que exista ali desejo, conflito psíquico, angústia, fantasia, recalque, falta.
A máquina não sonha. Não reprime. Não sofre. Não ama.
E pode ser justamente aí que permaneça algo radicalmente humano, que é nossa condição faltante, contraditória e inconsciente. Num tempo obcecado por desempenho, otimização e controle, a psicanálise continua lembrando que o sujeito não se reduz à eficiência.
Há algo em nós que falha e isso pode ser tão incômodo quanto um ferimento. Mas é precisamente dessa falha, e dessa dor, que nasce tudo aquilo que somos: humanos, singulares.




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