Do recalque à sublimação
- Maria Carolina Passos
- 1 de jul.
- 2 min de leitura
Freud observou que aquilo que tentamos expulsar de nós não desaparece. Um desejo proibido, um conflito insuportável ou uma lembrança dolorosa podem ser recalcados, mas o recalque não elimina sua existência. Apenas os mantém fora da consciência.
Enquanto isso, a pulsão continua lá, insistindo.
Quando essa força não encontra um destino, tende a retornar por outros caminhos (bem conhecidos), como ansiedade, compulsões, sintomas, repetições, fobias, angústias. É o que a psicanálise chama de retorno do recalcado.
Mas esse não é o único destino possível. Freud descreveu um outro caminho para a pulsão: a sublimação.
Ao contrário do que algumas pessoas imaginam, sublimar vai muito além de reprimir melhor, simplesmente extravasar emoções ou fingir que a dor deixou de existir.
Sublimar é oferecer um novo destino à pulsão. A mesma força que antes se manifestava predominantemente por meio do sintoma pode passar a sustentar uma criação.
Uma análise, no entanto, não promete a ilusão de uma vida livre de conflitos. A condição humana é, e possivelmente continuará sendo, atravessada pela falta, pelo desejo e pelas contradições.
O trabalho analítico aponta para outra direção. Pouco a pouco, aquilo que antes aprisionava o sujeito pode deixar de ocupar sozinho a condução da vida. O sofrimento não desaparece, mas pode deixar de ser apenas um lugar de impotência para tornar-se matéria-prima de novas possibilidades.
Ainda que sublimar não cale o barulho psíquico, o movimento permite que essa força, por vezes avassaladora, encontre formas mais construtivas de expressão.
Nem todo sofrimento precisa acabar em sintoma. Parte dele pode ser transformado em trabalho, estudo, arte, esporte, vínculos, pesquisa, voluntariado ou outros meios singulares de construir uma existência.

Na clínica, isso não acontece porque o analista ensina alguém a "ser criativo"; não existe uma técnica pra transformar sofrimento em produção.
O processo analítico cria condições pra que o sujeito possa simbolizar aquilo que o atravessa e, gradualmente, encontrar novos destinos para sua pulsão. É a passagem de uma posição em que somos conduzidos pela repetição para outra em que começamos a fazer algo com aquilo que nos constitui.
Talvez seja aí que, enfim, se inaugure uma forma mais autoral de existir.




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