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Gozo na psicanálise: não é sobre prazer

  • Maria Carolina Passos
  • 12 de fev.
  • 2 min de leitura

No uso comum, “gozar” costuma significar ter prazer, aproveitar algo, atingir um orgasmo. A palavra está fortemente associada à satisfação e bem-estar. Na psicanálise, no entanto, o gozo aponta para outra direção. Mais complexa. E, muitas vezes, desconcertante.


Gozo não é prazer

Em Jacques Lacan, o gozo não é sinônimo de prazer direto. Ele designa aquilo que ultrapassa o princípio do prazer. Se o prazer tende ao alívio e à redução da tensão, o gozo se localiza no excesso. Ele insiste. Mesmo quando dói, quando cansa, quando faz sofrer.


Casal dançando e sombra projetada mostra homem levantando punho pra mulher.

A pista freudiana: repetimos o que não nos faz bem

Essa formulação não surge do nada. Ao formular o “além do princípio do prazer”, Sigmund Freud observou algo perturbador: o ser humano repete experiências que não trazem prazer. Ele nomeou isso de compulsão à repetição. Há algo que se repete para além da busca por satisfação agradável.


Lacan radicaliza essa descoberta: existe uma satisfação paradoxal aí. Algo que satisfaz e insatisfaz ao mesmo tempo. Algo que toca o corpo de uma maneira que escapa à lógica do “isso me faz bem”. É isso que chamamos de gozo.


Gozo na psicanálise e o corpo: algo que escapa

O gozo é um real do corpo. Não é apenas psicológico. Não é simplesmente uma escolha. Não é falta de força de vontade.


Ele se manifesta nos sintomas, nas autossabotagens, nas escolhas amorosas que se repetem, nos padrões que parecem sem sentido - mas que retornam.


Cada sujeito tem seu modo singular de gozar. Não existe um gozo universal. O que para um é sofrimento insuportável, para outro pode ser modo de sustentação.


Nem todo gozo é “ruim”

É importante esclarecer algo: quando falamos em gozo, não estamos falando apenas de destruição ou sofrimento. O gozo também pode estar na criação, na paixão, no trabalho, no amor. Ele está ligado ao modo como cada um se relaciona com o próprio desejo e com aquilo que o ultrapassa.


O problema não é o gozo em si - até porque ele é estrutural. A questão é o quanto ele captura o sujeito. O quanto o comanda. O quanto se torna automático.


O que a psicanálise faz com isso?

Diante do gozo, há vias possíveis: defender-se dele (o que sustenta as estruturas clínicas), ou enfrentá-lo na experiência analítica.


A análise não promete eliminar o gozo - isso seria impossível. Mas pode abrir espaço para que o sujeito não seja totalmente governado por ele.


Talvez a pergunta não seja: “como parar de gozar com isso?”, mas “do que, exatamente, eu gozo quando me sinto assim?”


A psicanálise não vai oferecer respostas prontas, mas irá sustentar perguntas que deslocam posições. E, às vezes, esse deslocamento é capaz de alterar muitos destinos.

 
 
 

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©2025 - Psicanalista Maria Carolina Passos

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