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Neuroses de domingo

  • Maria Carolina Passos
  • 26 de fev.
  • 2 min de leitura

O que são as neuroses de domingo? Bom, você já deve ter percebido em você - ou em amigos e familiares - que o domingo carrega um certo peso, né? Tô falando daquele vazio que começa a cair no fim da tarde.


A inquietação, as dores de cabeça, a comilança sem fome, a taça que vira duas, o scrolling infinito… Um mix de fim do dia com fim do mundo, como se algo precisasse ser anestesiado antes da segunda-feira chegar com todas as suas demandas.


O psicanalista Sándor Ferenczi descreveu esse fenômeno como “neuroses de domingo”. Já lá em 1919, ele observou que, aos domingos, algo se desorganiza.


Durante a semana, o trabalho, as tarefas e os compromissos funcionam como uma espécie de sustentação psíquica. Eles organizam o tempo - e, com ele, o sujeito.


Quando a atividade cessa, o que aparece? Não é simplesmente “tédio”. É o encontro com aquilo que a rotina ajuda a recalcar


O domingo suspende certas defesas. Sem o ruído da produtividade, emergem:

- conflitos não simbolizados

- frustrações amorosas

- angústias quanto ao desejo

- ressentimentos silenciosos

- a pergunta que não quer calar: é isso então?


Ferenczi percebeu que muitos pacientes pioravam justamente nos momentos de pausa. Não porque a pausa fosse o problema, mas porque ela expunha o que estava sendo evitado.


Mulher com cubo de rubik no lugar da cabeça.

Existe uma espécie de medo difuso da segunda-feira que começa quando o sol se põe no domingo. Mas o sintoma não precisa ser moralizado, visto que é uma solução possível para algo que ainda não encontrou palavra.


E talvez por isso a sensação seja tão conhecida e ao mesmo tempo única - já que compete a cada um reconhecer suas próprias defesas e seus próprios impasses diante do desejo. É aí que o processo analítico se abre como percurso. Pra que o silêncio do domingo deixe de ser um tribunal e possa tornar-se um espaço de liberdade e apropriação.


Afinal, nas palavras de Cazuza, a gente vê o futuro repetir o passado, vê um museu de grandes novidades, mas o tempo… o tempo não para.


Não tem como eliminar o domingo e o que ele representa pra cada um de nós, mas é possível se escutar pra poder lidar melhor com seus efeitos. Porque, às vezes, o que dói na segunda já estava pedindo fala no sábado… ou há muito mais tempo do que se imagina.

 
 
 

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