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Medo da Morte

  • Maria Carolina Passos
  • 29 de mai.
  • 2 min de leitura

Os franceses têm uma expressão curiosa la petite mort, que significa a pequena morte.


Originalmente associada ao clímax, ela se refere àquela breve experiência de dissolução quando, por um instante, algo do controle, da consciência e até da própria identidade parece ceder.


Imagem preto e branco com silhueta de mulher sobre a cama olhando pra janela com cortinas, atravessada por feixe de luz.

A morte assusta. Não apenas porque um dia ela virá, mas porque ela vai se fazendo presente ao longo da vida.


O medo da morte costuma aparecer em preocupações constantes sobre sintomas físicos, no terror diante da ideia de perder alguém, em pensamentos intrusivos sobre acidentes, doenças ou tragédias. Ainda que tão anunciada, morrer parece algo mais repentino do que inevitável.


Ele também pode surgir em situações menos óbvias, como uma mudança de cidade, o fim de um relacionamento, a saída dos filhos de casa, o envelhecimento dos pais, ou a simples percepção de que o tempo está passando - não mais a nosso favor, como quando somos crianças “com tudo pela frente”, mas contra nós.


Como se cada transformação importante lembrasse ao sujeito algo que ele preferiria esquecer: nada permanece exatamente igual. Nada é 100% garantido.


Vivemos numa época que promete explicações pra tudo. Medimos passos, calorias, batimentos cardíacos, horas de sono. Produzimos estatísticas, projeções, probabilidades. Nunca tivemos tanto conhecimento sobre os mecanismos da vida.


E, ainda assim, continuamos sem saber o que fazer com aquilo que escapa ao conhecimento. A morte me parece marcar justamente esse limite.


Algumas pessoas tentam apaziguar a angústia pela via da racionalidade. Calculam riscos, conectam sintomas, buscam garantias, acumulam informações. Mas na clínica sabemos que compreender intelectualmente uma questão não é o mesmo que atravessá-la.


Existe uma diferença importante entre o desconhecido e o impossível.


Há coisas que ainda não sabemos. E coisas que pertencem ao campo do que jamais poderá ser plenamente sabido. A experiência da própria morte é uma delas.


A psicanálise não oferece uma resposta definitiva para esse impasse. Na verdade, talvez sua contribuição seja sustentar que nem toda pergunta precisa ser fechada com uma resposta. O que ela propõe é outra investigação.


Quando alguém diz ter medo da morte, a questão não é julgar se esse medo faz sentido ou não. Mas interrogar a fundo: o que exatamente essa morte ameaça levar?


Para alguns, é o controle. Para outros, os vínculos. Para outros ainda, a própria ideia de continuidade, de identidade, de permanência.


E há aqueles para quem o mais angustiante não é a morte em si, mas o vazio que ela evoca. Um vazio que nossa cultura tenta preencher a qualquer custo com (des)informações, produtividade, distrações e certezas.


Morrer talvez seja uma das poucas experiências verdadeiramente universais. Mas aquilo que ela convoca em cada sujeito está longe de ser.

Talvez porque, quando falamos da morte, raramente estejamos falando apenas dela.


 
 
 

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