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Redes sociais como forma de masoquismo

  • Maria Carolina Passos
  • 22 de jan.
  • 2 min de leitura

“Quero ficar mais offline, usar menos as redes sociais” isso te soa familiar? Essa vontade costuma aparecer com mais força no começo do ano, seja pela determinação em cumprir promessas, ou pela frustração de não o ter conseguido no ano que passou.


Na clínica, isso retorna como queixa, culpa, cansaço, mas também como insistência. A pessoa sofre com as redes… e sofre sem elas.


Do ponto de vista psicanalítico, talvez valha formular a pergunta de outro modo e interrogar o que se repete ali, apesar do sofrimento.


As redes sociais oferecem algo muito específico: exposição, comparação, vigilância, expectativa, frustração. Uma economia afetiva em que o sujeito se mostra, se mede, se corrige… e nunca é suficiente.

Ilustração de uma mulher com a cabeça inclinada para trás, conectada a um smartphone por um cabo enrolado em seu pescoço. A tela do celular mostra um ícone de bateria quase descarregada.

Há nisso um funcionamento que equipara redes sociais e masoquismo, não no sentido moral ou patológico, mas como Freud o pensou, como uma forma de satisfação que passa pelo desprazer.


Rolamos a tela esperando algo que nem sabemos exatamente o quê. E, quando não vem, continuamos rolando. Como quem insiste num encontro que nunca se realiza.


O feed promete identidade, pertencimento, reconhecimento. Mas entrega intensificação da autoconsciência, ansiedade e uma estranha sensação de vazio. E então voltamos a ele - não para nos encontrar, mas pra escapar de nós mesmos.


É um circuito fechado:

quanto mais me exponho, mais me perco;

quanto mais me perco, mais me exponho.


E se a saída não fosse “força de vontade”, nem detox digital, nem culpa?


Talvez a saída seja algo bem menos heroico e muito mais difícil de encarar: o TÉDIO.


O tédio não como falha, mas como intervalo. Como aquilo que interrompe o estímulo constante e faz surgir o que não foi programado.


Sem o feed, sem a resposta imediata, sem o olhar do outro mediado pela tela, o sujeito se confronta com algo raro hoje: o próprio ritmo, o próprio desejo, o próprio desconforto.


O tédio não resolve. Ele revela. E talvez seja justamente isso que tanto evitamos.


Não se trata de abandonar as redes ou negar sua funcionalidade, mas de perguntar: o que eu faço ali? E o que isso faz comigo?

 
 
 

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©2025 - Psicanalista Maria Carolina Passos

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